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14 julho 2010

O real e o aparente de Nietzsche

Vamos ler um pouco de Nietzsche:

"As características dadas ao 'verdadeiro ser' das coisas são as características do não-ser, do nada _ construiu-se o 'mundo verdadeiro' a partir da contradição ao mundo real: um mundo aparente, de fato, na medida em que é apenas uma ilusão ótico-moral." (...) "Dividir o mundo em um 'verdadeiro' e um 'aparente', seja à maneira do cristianismo, seja à maneira de Kant (um cristão insidioso, afinal de contas), é apenas uma sugestão da décadence _ um sintoma da vida que declina..." (trechos de O crepúsculo dos ídolos - os itálicos são do autor).

Para Nietzsche o único mundo real é aquele que os sentidos são capazes de apreender. Ele é avesso às utopias, aos ideais e às morais justamente porque não acredita na existência objetiva de valores. Para ele, qualquer fato moral ou metafísico não tem existência para além da mente que o pensa e é uma forma de distorcer o mundo real com base num juízo fundamentado em algo que não é real. É o que diz na máxima "não existem fatos, somente interpretações". Nessa base, Nietzsche critica os "melhoradores da humanidade", pessoas ou ideias que se propõe a melhorar o mundo, fazer o mundo feliz, com base em valores e promessas metafísicas (de existência para além do mundo material e empírico), pois, para ele, modificar ou definir o mundo que experimentamos com base num mundo imaterial, mesmo que racional ou metafísico, é diminuir e degenerar nossa compreensão da realidade.

Ele cita dois exemplos: o cristianismo e a filosofia moral de Kant (que, para ele, são muito semelhantes em seus métodos). Tanto o cristianismo, com sua moral cheia de ideais de perfeição e pureza, além de promessas de vida melhor num outro mundo, quanto a moral de Kant, baseada em seus "imperativos categóricos", que são comandos derivados de conclusões racionais com base no que é melhor para a humanidade, são construções de valores baseados na fé ou na lógica racional, ambos oriundos de interpretações, sem bases materiais empíricas.

Mas estes são só exemplos e poderíamos incluir aqui muitos outros "melhoradores da humanidade": ideologias políticas de qualquer espécie, por exemplo, onde a realidade é distorcida, mutilada e forçada em nome de um ideal. Assim ocorreu nas revoluções comunistas. Assim aconteceu também nas ditaduras facistas e ainda ocorre nas ideologias imperialistas capitalistas ou socialistas. "Melhoradores da humanidade", prontos a moldar o real com base no ideal (ou, para ele, "irreal"), o material com base no imaterial, dispostos a negar o que veem em nome do que acreditam, encontramos o tempo todo, todos os dias, em todo o mundo e no Brasil, onde ser petista é ser amigo do povo e democrata, e ser de qualquer outro partido é ser inimigo do povo, ser mau intencionado. É a dialética do "fiel versus infiel", "bom versus mau", que anima não só as religiões, mas também as ideologias políticas utópicas.

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